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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA

Vanessa Campanario 10/10/2007

O papel da mídia e o futuro do jornalismo gera preocupação em comunicadores comunitários


Comunicadores comunitários do País andam preocupados com o papel da mídia e o futuro do jornalismo. Seminários e fóruns são cada vez mais comuns para debater esses temas. A discussão se dá no âmbito de que a periferia precisa falar por ela mesma e que a interatividade é necessária para construir uma ponte entre os diversos setores da sociedade.

“A comunicação passou ser um fluxo de mão dupla. Hoje só é receptor quem quer”, diz o pesquisador de rádio comunitária José Carlos. Segundo ele, a tevê, internet, impresso e rádio são mídias que se completam e uma não exclui o papel da outra quando o objetivo é a democratização na distribuição da informação.

Pensando nesse novo modelo de disseminar a informação, as mídias comunitárias vêm ganhando força e preenchendo as lacunas deixadas pelos grandes veículos de comunicação. Produzir conteúdo voltado para as necessidades da favela ou periferia dá mais espaço e visibilidade para as pessoas daquela região. “As mídias comunitárias podem substituir o modelos de mídias esgotados”, completa José Carlos.


José Carlos: pesquisador de rádio comunitária

Como a oportunidade da comunidade ser vista e ouvida ainda é pequena na grande imprensa, são as mídias alternativas, durante todos esses anos, que privilegiaram esse nicho pouco explorado. Para Dante Quinter, presidente da TV ROC na Rocinha, “a comunicação comunitária é a uma das pontes que ligam os moradores da comunidade”.

Voz da periferia

Cláudio Rosa, morador e produtor de uma rádio comunitária em Queimados, na Baixada Fluminense, começou a trabalhar com comunicação, após ver os problemas da região onde reside serem resolvidos, ou ao menos debatidos, através de denúncias feitas na rádio.


Cláudio: comunicação como solução


“Nessas mídias, a população faz o papel de advogado, médico ou até professor. A interatividade permite a cobrança dos moradores e a resposta é imediata dos criticados. É onde as pessoas se reconhecem como se fosse um grande espelho”, afirma o produtor.

Para a professora Lúcia Lessa, o modelo de interatividade ainda não foi adotado de vez por outros veículos pelo preconceito. “Uma das barreiras está na própria mídia de massas, que pauta os assuntos e cria, nas comunidades e nos produtores de informação, a falsa noção de que o cotidiano, a vida de todo dia, os eventos simples das comunidades não são notícias”, explica a pesquisadora. Segundo ela, para esses veículos, o dia-a-dia comunitário não merece sequer o registro e o que interessa é noticiar fatos com apelos de violência, consumo e fama.

Dante defende que “a própria favela é uma fonte inesgotável de matérias e de histórias”, mas discorda com o tratamento dado nas notícias, como se elas fossem guetos inexploráveis. De acordo com ele, a grande diferença em seu veículo é fazer com que o morador deixe de ser visto como “coitadinho” só porque mora na favela.


Interatividade

A necessidade das pessoas em colaborar com a informação, afetou a forma como as pessoas se comunicam em escala global, através da internet. Um exemplo disso são os blogs (diários abertos na internet). Segundo a pesquisa de ibope/netratings, nove milhões de pessoas no Brasil acessam por mês milhares de blogs espalhados pela web.


Seminário mídia e violência realizado pela Unesco


Lúcia Lessa, professora e jornalista há 22 anos, conta que quando montou o site E-comunidade (que atualmente está em manutenção) pela escola de comunicação da PUC, moradores de diferentes comunidades da Zona Sul se mostraram interessados e entusiasmados em colaborar com o site.

Quando criou o site há seis anos, o acesso à internet ainda era raro e consequentemente a participação também, pois poucos lugares disponibilizavam o micro nas comunidades. “A interatividade era fraca devido à carência de recursos materiais (técnicos, de equipamento, sobrecarga de trabalho, etc)”, explica a especialista em web.

Segundo a jornalista Lúcia Lessa, a interatividade que a internet trouxe acaba com a idéia de que apenas uma pessoa ou veículo seja responsável pela informação. Todos podem ser responsáveis “Só há comunicação quando a mensagem permite resposta. Se o sistema não funciona assim, o que existe é um ato autoritário”, diz.

Esse novo passo na forma como as pessoas interagem pela internet já tem até nome, Web 2.0, que permite a participação do leitor na produção da informação, através de programas de computador que permitam essa colaboração. Para a professora, essa nova ferramenta dará um tratamento mais completo aos conteúdos publicados na internet. “O resultado desse trabalho pode reunir vários autores de diferentes culturas que vão produzir um material muito mais abrangente”.

Nesse novo contexto, o jornalista não é mais o único que detém a exclusividade da informação. O morador, leitor ou ouvinte tem espaço para questionar, reivindicar e divulgar o que ele acham ser importante para sua localidade.

“Um ponto importante da interatividade nessas mídias é que esse método não simplesmente apela para ouvintes sugerirem pautas ou publicar matérias como acontece em outras mídias. A diferença é o incentivo a reflexão e a adoção de novas posturas comunitárias entre moradores. Buscar a participação da comunidade nos problemas da cidade e o voluntariado na vizinhança”, diz o professor José Carlos

Carlos garante que hoje, por exemplo, a rádio comunitária é interativa, pública e há muito tempo deixo de ser massiva. “As pessoas não giram mais em torno da comunicação, agora é a comunicação que gira em torno das pessoas”, completa.


Dante: predidente da TV Roc, na favela da Rocinha


Segundo ele, é fácil perceber como veículos comunitários são capazes de promover a democracia. Uma atitude simples, como um debate antes das eleições municipais mudou a postura entre os moradores de uma cidade de São Paulo. O fato levou ouvintes a criarem uma urna no meio à praça da cidade, onde depositavam votos a respeito do apoio ou não à candidatura de um determinado candidato a prefeito.

Uma outra iniciativa que mobilizou a comunidade aconteceu na Rocinha na apuração da eleição para presidência da UPMMR (União Pró-melhoramento dos Moradores da Rocinha) em janeiro de 2004, feita pela TV Roc. Toda a contagem dos votos foi transmitida ao vivo na comunidade para não haver dúvidas entre os moradores e adversários. “A população que acompanhava a apuração enviava lanches para os produtores, solidarizados com as 8horas de contagem”.

A jornalista Lúcia Lessa ressalta que mesmo que esse método possa virar uma arma de denuncismo na periferia, ainda é válido pelo descaso com que essa população vive nas grandes mídias. “Os sistemas básicos, como educação, saúde e social são deficiente mesmo, então por que não denunciar?”, indaga.

O pesquisador José Carlos, afirma que a interatividade ganha cada vez mais espaço nas rádios comunitárias“. A interativa proposta é abrir o microfone e divulgar o sucesso da localidade, além de elaborar junto aos moradores estratégias de desenvolvimento local”, exemplifica o pesquisador. Ele ressalta que só a comunidade pode resolver o problema da localidade, mas que as mídias alternativas têm a sensibilidade para desenvolver esse objetivo.

O presidente da tevê comunitária, Dante, explica que ao fazer a programação da TV ROC, ele prioriza estudantes de comunicação que moram fora da favela. “Eles serão os jornalistas do futuro e se conseguirmos mudar a percepção desses jovens em relação à favela, por estarem experimentando numa mídia comunitária, voltaremos também para cá, outras câmeras”.

Segundo Lúcia Lessa, o primeiro passo é mudar o foco da noticia: “Um de nossos trabalhos iniciais é fazer esse comunicadores verem que fatos simples como: aniversários, notícias de famílias, cursos, desempenho de integrantes da comunidade em suas vidas profissional são de interesse coletivo”, diz.

Colaborou Landa Araújo

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